Bloom Brasil por Li Edelkoort

Postado em 23/10/2014

 

Li Edelkoort é hoje um dos nomes mais respeitados no mundo da moda e design. Dentro da sua empresa, a Trend Union que fica em Paris, ela coordena uma equipe que pesquisa tendências da moda, design, arte e comportamento para gigantes como a Coca-Cola, Warner, Gap, Lacoste, L’Oréal, entre outras. Já foi eleita um dos 25 nomes mais influentes da moda pela revista ‘Time’ e uma das 40 pessoas mais importantes no Design pela ‘Icon Magazine’.

 

O livro Bloom Brasil, lançado por ela este ano reúne ensaios fotográficos com referências visuais brasileiras, olhando para o Brasil desde uma perspectiva cultural, coisas orgânicas e raízes regionais. Cheio de imagens inspiracionais o livro serve como referência criativa para designers, estilistas e artistas do mundo inteiro.

 

 

Li, respondeu a uma entrevista feita pelo site FFW, sobre Brasil, moda e tendências:

 

Qual o conceito do livro “Bloom Brasil”?

É ideia é olhar para o Brasil pela perspectiva cultural, pelas coisas orgânicas, pelas raízes regionais. Exploramos o país analisando tendências culturais muito importantes. Acho que dá uma boa ideia do que é o Brasil.

 

Ronaldo Fraga e Isabela Capeto aparecem no livro. Por que vocês escolheram esses dois estilistas?

Geralmente não mostramos a moda já feita, só damos referências e ideias. Mas nesse caso achamos importante destacar esses dois designers que são tão ligados ao conceito de ser brasileiro.

 

Como você consegue prever uma tendência dois anos antes dela acontecer?

Desenvolvi uma confiança enorme na minha intuição há bastante tempo. Sempre que não escutava minha intuição eu errava! Então aprendi desde cedo que sempre deveria acreditar no que ela indicasse, mesmo me surpreendendo às vezes. E todo mundo nasce com intuição. Todo mundo às vezes quer encontrar uma peça, como um suéter de lã vermelho, e não acha. E no ano seguinte a peça está em todas as lojas!

Então desenvolvi esse senso de conseguir mergulhar no zeitgeist, que é uma grande camada de pensamento criativo que está por todo o mundo, e tentar entender os sinais e traduzi-los em cores, materiais, formas, comportamentos, etc.

 

E que tipo de surpresas você teve nos últimos anos?

Por exemplo, teve um momento que eu fiquei no meu escritório e pensei “O que eu vou fazer agora?”. E a palavra que veio na minha cabeça foi “Coberto”. E eu pensei “Coberto? Como assim?”. Na época estava na moda decotes enormes, shorts curtos, pernas de fora. Decidi seguir essa ideia e lançamos uma previsão de tendência dizendo que as pessoas andariam mais cobertas, com mangas mais compridas, calças compridas, meia em cima de meia, máscaras, véus, chapéus, lenços. Vi isso mais ou menos há cinco ou seis anos e foi o que aconteceu e ainda está acontecendo.

 

O que você acha da moda brasileira e dos brasileiros?

Amo esse país, tem uma cultura absolutamente vibrante. Acho que as pessoas não deveriam se inspirar nas coisas de outros países. Meu conselho à cultura do Brasil seria considerar de onde vocês vem. Porque o mundo está se tornando muito global e o próximo passo no mercado mundial é conquistar a América do Sul e a África. Então a indústria e os designers do Brasil deverão expressar o que os motiva intimamente, e não que está acontecendo em outro lugar.

 

E da arte feita pelos brasileiros, que está se tornando tão famosa com artistas como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes?

Acho que a arte brasileira em sua essência ainda é muito intimamente ligada com as raízes da cultura. É por isso que ela é tão importante na cena internacional. Vemos o mesmo na cena da arte na Índia e na África. Todos os artistas que estão tentando traduzir as suas origens se tornam muito populares no mercado mundial.

 

E é isso que os estilistas deveriam fazer com mais frequência?

Acredito que sim, talvez não agora, mas será um desafio porque se você quer ser global, você tem que se tornar local. Yves Saint Laurent é absolutamente parisiense, Ralph Lauren é completamente americano, Yohji Yamamoto é absolutamente japonês. Então quem tiver raízes, como eles, é capaz de conquistar o mundo. Se você tem uma marca que fica no meio termo, é mais difícil. E sinto que no hemisfério sul ainda existe um deslumbramento com Hollywood, Paris, Milão e eu diria “Bom, eu venho de lá e não é tão bom quanto vocês acham”. Nós gostaríamos de estar aqui!

 

E você pode me adiantar as tendências que está prevendo para os próximos dois anos?

Sim: mais loucura, mais ousadia. Acho que a moda ficou tão segura que está muito chata. Apesar de ter surgido uma tendência de moda muito importante que se chama “blunt and boring” (estúpido e chato), que já está aparecendo nos Estados Unidos e na Europa e que são as pessoas que não querem nem um pouco estar na moda. Então eles se vestem e você nem os vê.

Publicado em: Cultura

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